
Sou atual Diretor de Criação na TBWA/ChiatDay/Los Angeles. Trabalhei na Almap, Talent e Propeg/Bahia. 10 leões em Cannes, 3 Profissionais do Ano Rede Globo categoria nacional e prêmios no One Show, D&AD, London e Clube de Criação de São Paulo.
ARTIGO.
E o Pelé?
Sexta passada eu caí numa dessas armadilhas às quais todos estamos sujeitos por morarmos no Brasil. Não, não foi assalto, nem roubo. Nada disso, a história tem outro rumo. E surgiu na fila do banco. Logo à minha frente, dois senhores, perto dos sessenta e poucos anos, eram cumprimentados e admirados por todo mundo.Tinha gente pedindo autógrafo, tirando foto. Alguns realmente saiam emocionados com a breve dedicatória que os sessentões assinavam de improviso num pequeno pedaço de extrato de banco.
Para mim, já estava claro que era uma situação onde todos sabiam o que estava acontecendo, menos eu. Para não passar atestado de alienado completo, não quis perguntar do que e de quem se tratava. Fui ligando autógrafos com comentários até chegar à seguinte conclusão: diante de mim estavam dois dos campeões da gloriosa seleção de 70: Caju e Felix. E lá estava eu, junto aos ídolos dos brasileiros que entendem de futebol a ponto de lembrar dos craques da seleção de 70. Ou seja, todos na fila, menos eu. Na minha frente, dois sujeitos que ajudaram a fazer a história do futebol arte brasileiro. E eu ali, sem nenhuma pergunta interessante, sem nenhum comentário, nada para falar sobre aquele gol perdido ou aquele impedimento não marcado.
Cada um da fila tinha uma curiosidade a matar. Eu, parado bem atrás dos tricampeões, só tinha um sorriso nervoso a cada vez que o Caju me olhava como se estivesse esperando a minha pergunta. Eu estava encurralado. Tinha que pensar em alguma coisa rápido. Já estava ficando chato. E, dessa vez, não valia pegar o celular e procurar alguma coisa no Google. Ia dar muito na vista. Vasculhei os meus vazios e empoeirados arquivos mentais de futebol e, ali, atrás da propaganda do Gerson pro cigarro Vila Rica, a melhor coisa que encontrei foi o Pelé. Isso, vou perguntar como foi jogar com o Pelé. Hã? Não, essa deve ser a pergunta mais óbvia do mundo para esses caras. Deve ser o equivalente ao “ Você é modelo?” numa cantada. Não, não.
Prefiro passar por antipático a passar por burro. A fila andou, Felix estava sendo atendido, Caju, já com suas contas pagas na mão, ali ao lado, esperando por ele. Até que o caixa, que me conhece por essa agência ficar bem ao lado de onde trabalho, me cumprimentou e perguntou se tinha algum comercial meu na TV por agora. Nesse momento, Felix entra na conversa e pergunta:
-Ah, você é publicitário?
-Sou, respondi.
-E como você faz pra bolar essas propagandas?
A pergunta veio para mim como um grande alívio. E eu, prontamente, me senti livre para devolver:
-A gente se vira. E como é que foi jogar com o Pelé?
